Reflexões Pós-Carnavalescas

Passei a última semana no interior do Estado, mais precisamente em Encruzilhada do Sul, região serrana incrustada no Sudeste do Rio Grande do Sul.

Para descrever a cidade, é inevitável usar um clichê de jornalista da grande mídia: ali você respira a história viva, ou coisa parecida.

Encruzilhada é uma cidade quase tri-centenária (sua povoação começou em 1715, com índios e missionários que, junto da guarda da Coroa, repudiaram as invasões espanholas) e suas ruas já viram passar tropas Farroupilhas, sendo palco de batalhas registradas inclusive na literatura (a cidade é citada n’O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo).

Eu tenho uma ligação muito especial com a cidade, já que a família Noronha vem de lá, minha mãe e meus parentes nasceram quase todos na região. A árvore genealógica remonta às primeiras famílias açorianas que chegaram por lá, formando uma rica aristocracia rural da qual hoje só resta mesmo o sobrenome.

Quem diz não gostar de Carnaval precisa antes assistir aos desfiles e bailes realizados na cidade. Ela literalmente pára por 5 dias e casas transformam-se em concentrações, onde litros e litros de cerveja gelada são consumidos 24 horas por dia.

Os desfiles vão até aproximadamente às duas da manhã, quando começa o fervo nos clubes, que vai até sol alto. Dali todos continuam bebendo nas praças centrais ou voltam para as concentrações. Dormir? Algumas horas, quando dá tempo, afinal, existe a quarta-feira de cinzas para isso.

Os habitantes são bem-educados e atenciosos, por favor e muito obrigado faz parte do dia-a-dia, quem é de fora e chega lá pela primeira vez até estranha.

A água tratada pela companhia de saneamento vem de vertentes limpas e não precisa de tantas etapas de tratamento. Resultado? Não tem cheiro e é inodora, coisa rara hoje em dia.

A criminalidade beira o zero e não se vêem grades ou muros altos. É possível andar pelas ruas madrugada afora, sem ter medo de assaltos ou violência. No máximo, alguma briga sem grandes conseqüências por causa de namoradas.

Algumas fotos da Página do Gaúcho:

Encruzilhada do Sul

Encruzilhada do Sul 2

E do Carnaval:

Carnaval

Carnaval 2

De Volta ao Inferno

Esteio, onde vivo e para onde regressei hoje, é um tumor erguido no meio do caminho entre o Vale dos Sinos e Porto Alegre.

A cidade-dormitório, cinzenta, poluída e mal-cheirosa, oferece zero opções culturais, a casa de cultura está jogada às traças e o único cinema fechou as portas há séculos.

Sua população, mal-vestida e mal-educada, passa o tempo entre hamburgers gordurosos e programas da televisão aberta.

As casas e apartamentos são verdadeiras fortalezas cercadas de grades, protegidas por porteiros e cancelas 24 horas por dia, 7 dias por semana.

A água que vem do quase morto Rio dos Sinos só não fede mais do que as ruas, com seu asfalto escaldante cheirando a petróleo.

Quero sair urgentemente disso aqui, acho que no máximo em dois anos consigo ir morar no interior, de mala e cuia. Já saio ganhando logo de início: lá, 80% dos meus amigos não serão virtuais, raros dos quais conheci pessoalmente.

Quero voltar a respirar um ar que não tem poeira de cimento e o odor horrível da fábrica de margarina. Quero uma água que não contém mais de 90 produtos químicos diferentes.

A vida é uma só, é curta e não dá para desperdiçá-la nesse porão do mundo.

Esteio

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10 Comentários para “Reflexões Pós-Carnavalescas”

  1. Neto Cury disse:

    Infelizmente o nome não faz jus à cidade…
    SAI LOGO DAÍ! :D

  2. Boa sorte na volta, eu daqui uns meses estarei deixando uma cidade do interior gaúcho, esta na hora d’eu pegar o mundo..
    Boa sorte na volta, encruzilhada é uma cidade legal, apesar de ter somente ido uma vez

  3. Daniel Becher disse:

    Mas credo, índio velho. Eu tenho uma vontade enorme de morar no teu estado, sabia? Eu sou um apaixonado pela cultura do Rio Grande e as fotos de Encruzilhada já me deixaram com apetite imigrante.

    Faço votos que consigas ir morar no interior e quando lá estiveres, não esquece de convidar pra um churrasco gaudério uma barbaridade!

  4. Bender disse:

    Nesse carnaval eu estive em Livramento. Cara, q diferença para o Vale do Sinos.

    Novo Hamburgo não é um inferno como Esteio, mas a tranquilidade do interior é um diferencial tremendo.

  5. Não conheço Esteio (nem pretendo, depois da propaganda), nem Encruzilhada.

    Mas algumas coisas de Esteio me lembram Passo Fundo, mas talvez seja implicância minha por querer me mandar pore ste mundão…

  6. É verdade. Morar numa cidade grande é horrível, moro no Rio e também alimento o sonho de conseguir me estabelecer numa cidade como essa que você descreveu. Onde a educação, o ar puro e a liberdade de ir e vir não sejam meras lendas.

  7. Cler Oliveira disse:

    Tu poderia abrir uma anti-agência de turismo: a Norotur.Em uma parceria com a Lady Murph.

    Gente, eu ri horrores da tua sincera análise sobre Esteio. Eu fui lá uma única vez. Não sabia que era feriado municipal. Parecia uma cidade fantasma. A única coisa aberta era o motivo da minha ida até lá: a loja de troféus (bola de feno voando). Mas me disseram: “durante os dias úteis é ruim também”. Haha.. sorte na próxima parada :)

  8. Ulisses Adirt disse:

    Credo, Noronha… O pior é q moro em São Paulo e adoro…

  9. Anny disse:

    Ulisses me convidou para vir até aqui e aceitei o convite.
    Rapaz! Que coisa horrorosa…
    Antes de ontem choveu aqui depois de muito tempo sem chuva. Foi mostrado nos jornais. O que fiquei apavorada foi com o cheiro ruim que ficou no ar durante a tarde de ontem. Tive que fechar as janelas e bater um desodorante. Moro no décimo segundo andar e não escapei. Lembrei do cheiro ruim da fábrica de margarina que mencionou ter em esteio. Ai, ai. E não posso me queixar. Sou mineira…

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    1. [...] o Noronha matutou em seu blog sobre a qualidade de vida dessas duas cidades gaúchas, Encruzilhada do Sul e Esteio. A qualidade da água foi a diferença que me saltou aos [...]

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