Assisti semana passada ao filme Slumdog Millionaire (literalmente “Milionário Cachorro de Favela”), um dos favoritos na corrida ao Oscar de melhor filme.
Com um título que segue a tradição brasileira de dar títulos estúpidos em português, Quem Quer Ser um Milionário poderia também ter sido rodado por um cineasta brasileiro.
O filme esfrega pobreza na nossa cara por pelo menos 90% do tempo de exibição. Algumas cenas investem até na escatologia para deixar muito claro que a Índia é um dos lugares mais pobres e sujos do mundo. Troque a Índia por alguma biboca nordestina e temos um filme brasileiro que faria a alegria dos intelectuais e seria solenemente ignorado pelo público.
O povo também não é poupado. Com exceção dos protagonistas, quase todo mundo é mostrado como mau-caráter, seja pobre ou seja rico.
A música é boa, mas não foi o suficiente para me fazer perder a vontade de abandonar o filme pela metade. Se não fosse pelo interesse em escrever à respeito, teria desistido após os primeiros 30 minutos.
Depois da metade melhora, mas tudo se transforma em uma seqüência previsível de emoções baratas, do tipo “será que ele vai conseguir?”.
Entendo o interesse que o filme despertou no restante do mundo, europeus e norte-americanos adoram ver a miséria alheia e distante nas telas. Para mim, um brasileiro acostumado a ser esbofeteado pela mesma diariamente, na forma de pedintes que se multiplicam como ratos, é perfeitamente dispensável.
Já “Caminho das Índias”, que eu me obriguei a assistir a 10% de um terço de capítulo por obrigação profissional, é tudo que se esperava de uma novela da Globo em geral e de Glória Perez em particular.
Glória Perez é especialista em distorcer culturas para criar suas histórias, que eu me lembre, desde aquela dos ciganos passando por “O Clone”, onde se misturava de muçulmanos a experiências genéticas, tudo com a profundidade de um pires.
“Caminho das Índias” é o anti-Slumdog Millionaire, mostra uma Índia onde a maioria é composta de brancos ricos ou no mínimo classe média. Até uma indiana loira eu vi, e quando se vê uma indiana loira, algo definitivamente está errado.
Vai fazer sucesso? Claro que vai, e com ele, virá o pior efeito colateral das novelas da Globo, o povão adotando os bordões dos personagens principais, e eu perguntando “o que?”, para ser olhado como se tivesse recém chegado de outro planeta, por não saber o que se passa na novela das 8.
