
Imagem por Kittyz202 via Flickr
O Antes
Se programa de paulista no final-de-semana é ir para o aeroporto ver avião decolar, o de gaúcho deve ser ir para hipermercado.
Se eu já não gosto muito de gente, gosto menos ainda de uma multidão que se esbarra pelos corredores, atrás da oferta que dura apenas 2 minutos.
Aqui onde eu moro há apenas uma loja dessas e, para meu azar, é daquelas que parece ter na fachada um luminoso escrito “Pobres, Sejam Bem-Vindos”.
Não me entendam mal, não tenho nada contra pobres, desses que pedem dinheiro na sinaleira, esses eu apenas toco o carro por cima e normalmente nem lembro que existem.
Estamos falando aqui do “new pobre”. Você conhece o tipo, é aquele que veste roupas compradas na Renner ou C&A e é tão classe média baixa que tem 2,3 filhos.
Ele dirige um Corsa financiado em 72 vezes e é casado com uma mulher que já foi bonita um dia, caso você considere a cruza de um hamster com um juiz de vôlei bonita.
Quando chega o sábado à tarde, ele pega o Corsa, recheia com a mulher e os 2,3 filhos e vai às compras como quem parte para a Terra Prometida.
Munido do cartão da loja e de uma lista de compras, ele chega ao hipermercado, onde transformará sua vida em um inferno. Nesse caso, a minha.
O Durante
Depois de circular 17 vezes pelo estacionamento lotado, ele consegue estacionar e adentra a loja, onde irá se reunir com outros 1200 exemplares da espécie.
Nessa altura do campeonato, a Jennifer Fernanda já está chorando para ganhar uma boneca que fala (em chinês, mas fala) e o Thomhas Cruiserson (a mãe era fã de Tom Cruise) joga futebol com latas de refrigerante, com as pernas dos outros clientes fazendo as vezes de goleira.
Você só quer alcançar uma pizza congelada no freezer, mas isso equivale a uma epopéia não muito diferente da enfrentada pelos 300 de Esparta.
Um mar de carrinhos separa você de seu intento e não adianta pedir licença, já que ninguém parece falar a sua língua.
Você pensa que não pode piorar, mas percebe que está enganado quando decide pegar um chocolate.
Essa prateleira é sitiada por uma horda de mulheres que gritam o tempo inteiro chamando os pirralhos, que rasgam toda e qualquer embalagem que esteja ao seu alcance, para lambuzarem-se e depois esbarrar em você, fazendo com que sua roupa passe a cheirar a uma mistura de Cheetos, Trakinas e Baton.
Por falar em cheiro, agora eu sei como essas indústrias de cosméticos que vendem porta-a-porta enriqueceram. Só o dinheiro gasto em perfume barato pela clientela de uma dessas lojas seria o suficiente para financiar uma viagem à Lua.
Desistindo do chocolate, você vai para o caixa, na ânsia de fugir daquele cenário que, se acontecesse em outra época, hoje as Pragas do Egito seriam 11.
Essa é a hora em que sua paciência é desafiada até o limite que separa o cidadão comum do assassino em série.
Todos, eu disse todos, que estão na fila:
1. Pagam 2 ou mais contas, além das compras.
2. Pagam com cheque, que precisa ser conferido pelo fiscal vidente, já que ele apenas olha para o mesmo e conclui que tem fundos.
3. Pagam com cartão, que não passa nem na terceira tentativa, o que leva o sujeito a discutir com o caixa e exigir a presença do presidente da rede.
4. Todas as alternativas.
Até que chega sua vez. Apenas alguns minutos o separam da versão revista e ampliada do Inferno de Dante e a rua.
Isso fatalmente detonará um dos seguintes processos:
1. O papel da máquina registradora acaba.
2. O fiscal vem recolher o dinheiro do caixa para o carro-forte levar.
3. Falta luz e a loja não tem gerador próprio.
4. Um canguru albino surge do nada e começa a socá-lo, enquanto cita Proust.
5. Todas as alternativas.
O Depois
Finalmente você consegue pagar e se dirige para a saída.
Ao lado da porta, um dos seguranças do carro-forte olha para você como um americano para um ex-soldado de Sadan, segurando uma .12 carregada e com o dedo no gatilho.
Ele veste um uniforme e um boné, o que faz com que pense estar acima do bem e do mal, apesar de ganhar o suficiente apenas para assistir ao Domingão do Faustão em uma TV de 20 polegadas, enquanto a mulher reclama de tudo, do preço da água sanitária à crise no Oriente Médio.
Ele faz parte desse tão desconhecida categoria profissional, o segurança.
Mas isso já é assunto para outro artigo.
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Valeu umas duas risadas… talvez três.
Bah … mas que bobagem … ta tentando imitar o morroida?
Eu ainda não tenho esse problema pq é mamãe que faz as compras, mas como eu já estou preparando a mudança para morar com a namorada já é bom saber o que acontece quando eu precisar visitar estes locais.
UHhee o pequeno desenvolvimento econômico na classe baixa tá gerando os “new pobres”, que você destacou… agora o consumismo já consegue atingir a todos, não se inicia mais na “classe média média”, aquela que faz um pacote da CVC a cada 3 anos.
Vide música Classe Média, do Max Gonzaga. Quem não conhece, joga no Google.
Abraço!
http://www.sucodecevada.com.br
“Um canguru albino surge do nada e começa a socá-lo, enquanto cita Proust.”
Ainda bem que isso nunca aconteceu comigo
Ótimo texto, Noronha! Você conseguiu resumir, com humor, a odisséia que é ir ao supermercado (aqui no interior não existem hipermercados, graças a Deus).
Eu também tenho pavor de multidões, de corre-corre e de gritaria de crianças.Meu sonho de consumo? Poder fazer as comprinhas da semana online! E “Jennifer Fernanda” foi demais!
Beijos
O macete de ir ao supermercado sem estresse é observar os dias e horários mais favoráveis. Se eu vejo um monte de gente circulando com carinhos, me apresso logo para chegar ao caixa, pois em menos de 15 minutos já estarão tomados por filas. Durante a semana, fica impossível comprar algo após as 18:30. Aos domingos, eu procuro chegar antes das 10:00.
Errata: circulando com caRRinhos (porcaria de teclado).
Sensacional, você descreveu bem a agonia que é ir a um Hipermercado!!
)
Noronha, aqui em Sampa acontece a mesma coisa.
Engraçadíssimo o teu texto! Adoro o teu senso de humor. Abraço