Se alguém longe do Rio Grande do Sul ouvisse alguma rádio gaúcha no dia de ontem ou lesse qualquer jornal hoje, imaginaria que um grande vulcão surgiu no centro do estado, cobrindo de lava incandescente mais de 60% da região.
Termos como tragédia, vento mortal e fotos dignas de filmes de terror estampavam as capas dos dois principais jornais, tanto o que finge ser sério e imparcial como o voltado a analfabetos e aposentados.
É fácil fazer esse tipo de jornalismo e garantir sua vaga em tão modernos meios de comunicação.
Cobertura em Tempo Real

Essa é a função do jornalista de rádio am, aquela que conta com dúzias de correspondentes, repórteres e ouvintes desocupados sempre prontos a passar informações via telefone e mensagens de texto.
Se você é um locutor, use um tom apocalíptico para falar e, quando não houver novas informações, repita o que já disse, aumentando o tom apocalíptico e, se nada de novo surgir por muito tempo, invente.
“- Um muro caiu e matou um cachorro”
Depois de 5 minutos sem novidades vira…
“- Um muro de 10 metros de altura caiu e matou uma pessoa”
Depois de 10 minutos sem novidades vira…
“- Um muro de 20 metros de altura e 100 metros de comprimento caiu e matou 14 pessoas, incluindo 4 grávidas de quadrigêmeos acompanhadas de 5 filhos cada uma”
Despreze qualquer informação que venha da Internet, afinal essa coisa nova que inventaram não é confiável mesmo e só apareceu para ameaçar seu emprego. Logo você, que nem entendeu direito ainda a função do email.
Cobertura Jornalística
Comece com um relato dos estragos causados pelo (furacão, tornado, tufão, queda de avião, invasão bárbara etc); dê enfase ao número de mortos e danos materiais.
Quanto maior o número de mortos, melhor. Escolha as mortes mais comoventes para ilustrar sua matéria, enaltecendo as qualidades das vítimas, mesmo que fossem foragidos do presídio com dezenas de mortes em seus passados.
Escolha dois ou três casos de pessoas que escaparam da morte por pouco e dê destaque para seus depoimentos falando que “foi um milagre de Deus”. As pessoas que leem seus jornais são normalmente estúpidas e não se perguntarão por que Deus não fez milagre para os outros 187 que morreram.
Encontre Culpados

Qualquer tragédia tem um culpado, e é sua função encontrá-lo, acusá-lo, julgá-lo e condená-lo.
Ninguém é culpado pela chuva? Não, mas alguém é culpado pelo esgoto que transborda.
Viu? Não há como perder esse jogo.
O Dia Seguinte
Hora de contar as emocionantes histórias de reconstrução, enaltecendo os heróis anônimos e dando nome a alguns, já que todos gostam de heróis.
Não há heróis na sua história? Invente um, o povo adora heróis que arriscaram a vida, mesmo que o máximo que ele tenha feito seja fechar uma janela para não molhar a cama.
“Seu José evitou que um meteorito atingisse em cheio a cama onde dormiam 35 recém-nascidos, arriscando a própria vida”
Viu como soa melhor?
Não só aqui no estado, mas em todos os outros o manual também se aplica. O curso de jornalismo é uma máquina de fazer sensacionalistas.
Hehehe… é a pura verdade: curso de jornalismo só forma sensacionalistas e ptistas, o que não quer dizer que exista diferença entre os dois grupos, a não ser o caso de que o segundo é formado por mentirosos compulsivos…mas, de qualquer maneira, quem ainda não viu assita ” A montanha dos 7 abutres”…perfeito para a matéria.