kafkianas

I write differently from the way I speak, I speak differently from the way I think, I think differently from the way I should think – and so it goes on into the darkest depths of infinity.

(Letter to Ottla, July 10, 1914)

Noite dessas estava assistindo a O processo, filme baseado no livro homônimo de Franz Kafka. É a história de um funcionário público ou coisa do gênero que leva uma vidinha medíocre até o belo dia em que, do nada, é processado por algo que nunca é esclarecido o quê, nem a ele, e vê sua vida entrar numa espiral de loucura até o final, em que é executado, também sem explicações.

Se eu tivesse paciência prá entrar no orKUt, criaria uma comunidade do tipo “Kafka fumava maconha”, dada a esquizofrenia de seus escritos. Só li A metamorfose, aquele em que o cara acorda transformado em um inseto gigante (todo mundo fala barata pela descrição, mas no livro só é falado inseto). É um dos livros mais perturbadores que já li, comecei depois do almoço e só consegui largar no final. Sente-se uma crescente sensação de incômodo, a começar pelo primeiro parágrafo:

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar.
Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.”

Bonito isso, principalmente depois do almoço.

Você deve estar se perguntando “ele não ia falar do filme?” e eu respondo não enche. A questão é que tanto o filme quanto o livro têm um ponto que é comum a tudo que conheço de Kafka: um personagem central perturbado em uma situação inusitada, cercado por um mundo que pensa compreender, até que é surpreendido. Pensando nisso, é fácil perceber porque Kafka é atual como se escrevesse nos dias de hoje. Vivemos num mundo kafkiano, em que a Cicarelli comunica, entre aspas, a imprensa, que estará em uma praia da costa espanhola com o namorado e depois processa os meios de comunicação que divulgaram seu vídeo estilo Canal 80.

É o mesmo mundo que pode vir á cobrar pedágio dentro das cidades. Imagina você indo na casa de namorada e pagando pedágio, com sorte só na ida.

Kafka certamente ficaria perdido nos dias de hoje e seus livros pareceriam págios da vida real. Não seria um mundo kafkiano, seria um Kafka mundano.

Escrito por

j. noronha criou esse site em 2006, além de outros menos memoráveis.

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