Enforquem o último caminhoneiro nas tripas do último motorista de ônibus.
Sula Miranda
Outro dia eu estava levando um amigo americano imaginário ao aeroporto quando ele comenta:
- Por que tem tanto caminhão nesse país, em toda parte?
- Ora, para transportar as coisas, como em qualquer outro lugar.
- Não, eu já estive em vários lugares do mundo e nenhum tem tanto caminhão como aqui. O Brasil não tem mar?
- Tem, mais ou menos uns 9 mil quilômetros de costa.
- Pois então…
Realmente, o Brasil é um país atípico. Raciocinem comigo, por que raios transportar carros empilhados naqueles caminhões gigantes por quilômetros e quilômetros, quando seria muito mais fácil transportá-los de navio?
Quem já viajou para qualquer lugar sabe o inferno que é aquela fila de caminhões dirigindo como se vivêssemos no velho oeste.
Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante, eu trabalhei no escritório de uma transportadora, e tive a oportunidade de conviver com essa espécie da nossa fauna.
Ali pude descobrir várias peculiaridades, que permitem elaborar um pequeno guia do caminhoneiro brasileiro.

- Caminhoneiros são os responsáveis pela sobrevivência dos bordéis de 5ª categoria, aqueles em que ninguém se contamina por DSTs porque os vírus e bactérias tem nojo de entrar.
- Eles são todos “muito macho”, mas costumam parar para loiras que calçam 44 e fazem a barba todas as manhãs.
- São todos muito religiosos. É comum um caminhoneiro puxar da carteira um pacote amarfanhado, dizendo que aquilo o protege. Mesmo que você não demonstre nenhum interesse, ele irá mostrar o rosário, patuá, insira a superstição aqui etc.Deve ser por isso que fazem ultrapassagens em fila dupla à 120 km/h descendo a serra. Eles estão protegidos.
- Como tudo é transportado de caminhão, eles costumam dizer que “sem caminhão o Brasil pára”. Na verdade, com caminhão o Brasil não pára, mas também não anda.Você já deve ter visto a cena. Um caminhão se arrasta à sua frente, enquanto outro se arrasta ao lado, por quilômetros e quilômetros. Quando o caminhão à sua frente finalmente abre caminho, você enxerga a estrada deserta por uma boa distância.Isso mesmo, o caminhoneiro que trafega a 60 km/h adora ultrapassar o que anda a 59, e faz isso mantendo a mesma velocidade de antes: 60 km/h. Leva tempo, muuuuuuuito tempo.
- Com o advento do celular, o caminhoneiro se modernizou, agora ele não precisa mais ficar desconfiado da mulher que ficou em casa, ele pode ligar para ela várias vezes ao dia. Isso gera um outro problema. Quando a mulher não atende, ele logo pensa que ela está com o amante.Aí temos mais um fator que só piora o trânsito: o caminhoneiro descornado assassino em potencial.Esse é aquele que cola o pára-choque na traseira do seu carro e aciona aquela buzina que ressuscita os mortos e mata de enfarto os vivos.
Imagine a cena:
Um ser que dorme 3 horas a cada 5 dias, movido a drogas estimulantes e pinga, dirige transtornado pensando na mulher que o trai com o vizinho. Isso não pode acabar bem.
- Por falar em pára-choques, até isso mudou. Até um tempo atrás os pára-choques de caminhão serviam ao menos como distração, com suas frases espirituosas, enquanto você ficava trancado no trânsito atrás da versão brasileira do Kris Kristofferson com um palito no canto da boca.Como desgraça gosta de companhia, era mais do que natural que o crente, essa praga que se reproduz como ratos, se unisse ao Michael Schumacher depois da hepatite, resultando no caminhoneiro crente e suas frases de pára-choque “inspiracionais”.”Com Jesus pela estrada.”
“Se Deus está comigo, quem estará contra mim?”
Emocionante.
- Outro fato interessante para fechar a lista é uma invenção que todos creditam aos motoristas de ônibus, mas na verdade é criação dos caminhoneiros: a esquerda eventual.Explico:Você já deve ter notado como alguns caminhões andam com o pisca ligado o tempo inteiro, como se fossem dobrar à esquerda à qualquer momento? Isso tem uma explicação. Quando ele passar por cima de um veículo leve (qualquer coisa com menos de 1,5 toneladas), poderá alegar que sinalizou a manobra e o outro não viu.
Essa prática é muito utilizada em conjunto com outra que vou denominar “arrastão”. O caminhão invade a pista contrária, transforma um carro de 4 portas em meia moto com o impacto e depois arrasta os destroços para a pista da direita, para dar a impressão de que o outro veículo se chocou de frente com ele, na contra-mão.
Costuma funcionar que é uma beleza em dias de chuva intensa, que lava as evidências.
*Para melhor aproveitamento do texto, leia assobiando “O Caminhoneiro” de Roberto Carlos.
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hehehehehehehehe, mas falando em trânsito, os caminhoneiros não são os unicos motoristas sem noção. acho que todo mundo tira uma lasquinha dessa constatação. E não é só o litoral não. Temos centenas de quilometros de estradas de ferro que não são utilizadas. O Brasil é o país das estradas e do monóxido de carbono. Não tem mais como mudar.
Meu pai sempre diz que motorista de carro é que não sabe dirigir. E é bem verdade, a diferença de um caminhoneiro e um cara que aprendeu a dirigir na auto-escola e só sai para estrada durante o veraneio é bem grande.
Mas e o que seria de nós, caro noronha, sem a nossa Sula Miranda?
Concordo com nosso amigo Henrique!!! Deve ser o caso de quem escreveu este texto.
Lixo….
Bem…
Falar mau todo mundo faz…
E pra resolver o negócio que quero ver….
Transportar em caminhão não é mais barato que em barco? Se é, a coisa não vai mudar nunca.
Alex,
Um navio de médio para pequeno transporta 20 mil toneladas, ou o equivalente a 1000 carretas, um grande transporta fácil 300 mil toneladas, os maiores, mais de 500 mil.
Faça as contas.
Sei bem como é essa história da seta pra esquerda e de caminhões descendo a serra a 120km/h.
Ótimo texto, meus parabéns.
Sem contar que os camioneiros se acham OS motoristas, então como tal são os donos da estrada, entram na frente dos carros e sabem que são maiores e o carro que se vire pra frear.
90 % dos motoristas de caminhão são assim, infelizmente. Quase todo dia pra ir trabalhar passo uma rotatória em que os FDP vêem os carros e fazem questão de atravessar a merda do caminhão na frente, dá vontade de surrar uns lazarentos desses.