A Web 2.0 e os Caranguejos

Caso você não saiba, o Fugita deu na Época. Maravilha, destaque e mais leitores para o Techbits, certo?

Não, a menos que um leitor faça uma busca por seu nome, o que dever ser o caso de 0,05% da metade do público da revista, nada muda em seu blog. Por quê?

Segundo o próprio:

Não sei se vai reverter em leitores, pois a Época – como toda mídia tradicional – esqueceu de dar um mísero link, ou citar a URL do Techbits. Até na versão da internet.

Esqueceu eu deixo por conta da boa-educação do Alexandre, já que a matéria é farta em links, só que links para outras matérias da Época e sites estrangeiros, inclusive um tal de google.com.

Será que alguém não conhece o endereço do Google? Acredito inclusive que é o único conhecido pela maioria das pessoas que navegam no Brasil.

Será que todo mundo conhece o endereço do Techbits? Se o link para o Google era relevante, na concepção da revista, o do Techbits não seria mais relevante ainda, visto que o foco da matéria era apresentar essa tal de Internet 2.0 para laicos?

O ponto g da questão é que a Época precisava de representantes do “movimento” para abalizar sua matéria. SUA matéria.

Eu li em algum lugar, escrito por um jornalista, que a maioria de seus colegas voltaria correndo para a máquina de escrever se fosse possível. A Internet assusta quem precisa de um diploma para escrever, muitas vezes sem o menor talento natural.

Abrir a possibilidade de ter sua opinião debatida é assustador, visto que na maioria das vezes você escreve a opinião do veículo e provavelmente não tem opinião própria formada para muita coisa além do campeonato brasileiro de futebol. Por que você acha que muitos blogs de portais exigem registro para comentar? E além do registro, há a moderação, para não correr o risco de ter de responder a alguém que discorde.

Os blogs do Interney Blogs foram abraçados pelo IG, mas está bem claro na página do site: Blogs do IG.

Não estou desmerecendo o fato, eu aceitaria um convite do tipo na mesma hora, mesmo que tivesse de migrar para a url que fosse. Até porque dinheiro é bom e eu gosto, além do que, com a visibilidade, seria muito fácil alavancar quantos domínios eu quisesse através do blog migrado.

A questão é outra: a Internet brasileira é feita por gigantes pré-históricos da mídia impressa, com raras exceções. E mesmo as exceções seguiram o modelo estabelecido.

Se você lembrar a Rede em 1999, 2000, Internet era sinônimo apenas de pornografia gratuita e meia dúzia de sites brasileiros replicando as notícias dos jornais.

Hoje em dia, goste você ou não, é a mesma coisa.

A diferença é que o grande público descobriu sua existência. E por grande público eu digo 99% das pessoas.

Uma noite dessas eu estava zapeando e cai em um desses canais que vendem espaço entre um comercial da Polyshop e outro. Chamou-me a atenção a ruindade do programa e do apresentador, um baixinho de maneiras afetadas, clone do Amaury JR.

Ele entrevistava uma modelo e manequim que quer ser atriz e, a certa altura, perguntou:

O que você acha dessa novidade toda de Internet, Orkut, MSN?

Ah?

Pois é, a Internet é uma novidade, e blogs são para celebridades falarem sobre sua agenda, publicarem suas fotos e deixarem 3 meses sem atualizações.

Se os blogs quiserem atingir alguma relevância, precisam mudar urgentemente o foco. O que traz credibilidade é, única e exclusivamente, um grande número de leitores. E, antes que alguém diga que fazer alianças com portais vai trazer esses leitores e essa credibilidade, não esqueçam que o que vai ficar gravado na cabeça dos leitores é o nome do portal, não do seu blog.

Precisamos aceitar o fato de que vivemos o Dia 0 da Intenet no Brasil. Esqueça o que ficou para trás, e esqueça principalmente os links de portais e coisas do gênero.

Hoje já é comum as pessoas buscarem informações em blogs, mas sem ter a consciência do que se trata. Se eu quero saber sobre um seriado, é natural procurar o Poltrona, mas o leitor tradicional chega lá por acidente.

Soluções? Facilitar a vida desse leitor.

Esqueça RSS feeds, pense mais em feed por email. Preste atenção em seus paraquedistas, eles descobriram o email agora e querem que tudo seja enviado para lá. Muitos blogueiros não sabem o que é feed, e isso é um fato. Imagine alguém que ainda usa email do Hotmail

Um link para adicionar aos favoritos ainda é uma excelente pedida, não descarte nem a possibilidade de uma página facilmente acessível explicando o que são favoritos.

E não custa lembrar, esqueçam um pouco a Wikipedia, deixem de ser preguiçosos e procurem uma referência bem elaborada, facilmente encontrada em outros blogs.

Ah, mas a Wikipedia têm coisas bem escritas.

Então vá escrever lá e não encha o saco.

Leia mais os americanos e aprenda a linkar. Não é só o fato da língua, é uma questão de cultura blogueira. Para que referenciar o G1 se o que eles publicam está disponível há dias, às vezes semanas, em outras línguas? Precisa de aval antes de comentar algo novo? Vá estudar comunicação.

Um turista passeava pela praia e encontrou um catador de caranguejos. Ele observou que os caranguejos eram colocados num balde sem tampa, e perguntou ao catador:
- Você não tem medo de perder os caranguejos enquanto você cata outros?
- Não, ao tentar sair do balde um carangueijo puxa o outro para baixo.

Deixem de ser caranguejos.

A questão de a língua portuguesa ser pouco falada e lida é uma desculpa que já começa a cansar. Por um acaso a música brasileira tem algum problema de execução em rádios? Nossos cantores estão passando fome?

O problema de escrever em português é a vizinhança, com a usura nos links e a ausência de um verdadeiro sentido de comunidade.

Não estou de forma alguma desmerecendo o que aconteceu com o Techbits e fico feliz que o Fugita esteja atingindo esse grau de reconhecimento. Mas precisamos de mais, reconhecimento com link, já que essa é a pedra fundamental de qualquer blog.

Não, não acho que os blogs devam ou vão substituir os portais. Mas sim que devem ser uma mídia como outra qualquer, que sobreviva e cresça com ou sem o reconhecimento de quem quer que seja.

Pare de escrever para o Google e, mais uma vez, link mais, links relevantes ao texto, não aquele blogroll no final de uma página infinita.

Se amanhã o Google acabar, os links continuarão a trazer tráfego, e tráfego de quem quer ler o que você escreveu.

Estou sendo radical?

Provavelmente sim, mas discussão não enche barriga, o negócio é agir. Eu não agüento mais ver aquelas threads na Blogosfera perguntando como SEO isso ou aquilo, ou como acertar o relógio do blog para o horário de verão.

Como se tornar um problogger? Escrevendo, linkando e sendo original, não passando o dia a trocar emails inúteis sobre assuntos mais ainda.

Escrito por

j. noronha criou esse site em 2006, além de outros menos memoráveis.

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